Especialista alerta que o País precisa se estruturar para zelar pelo grupo da terceira idade, que será a maior parte da população – O conteúdo do Tribuna Online é protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa média de vida do brasileiro é de 76,6 anos e, em 2050, o Brasil deve se tornar um país de idosos. No Estado, a expectativa de vida é de 79,1 anos.

Na avaliação do médico geriatra e intensivista Luiz Gustavo Favoreto Genelhu, ainda há muito o que se fazer no Brasil para que o idoso tenha uma vida saudável e autônoma, tanto na questão estrutural quanto no comportamento social, com quebra de preconceitos.

Quem é? –

Luiz Gustavo Favoreto Genelhu

  • Médico geriatra pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia desde 2003.
  • tem especialização em terapia intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira.
  • Atualmente é diretor técnico do Grupo Royal Care.
  • Médico Rotina da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Unimed.

A Tribuna – O Brasil não é mais um país jovem? Estamos preparados para envelhecer?
Luiz Gustavo Genelhu – Cada vez mais vamos ver nosso País ficar mais velho. Somos um país que está envelhecendo. Se compararmos nossa pirâmide etária com os últimos anos, ela ainda tem uma base muito alargada e vai afinando nas pontas, mostrando que a maioria ainda é jovem, mas com o tempo isso deve mudar.

Até 2050, nossa pirâmide etária vai ficar muito parecida com a pirâmide dos países desenvolvidos. Então, a nossa população idosa, acima de 60 anos, e principalmente a população muito idosa, aquela acima de 80 anos, vai crescer bastante.

O preparo, tanto da população quanto dos profissionais de saúde que lidam com esses idosos, não acompanha a velocidade desse crescimento. A gente ainda não tem uma estrutura, seja de saúde pública e até mesmo de saúde privada, na grande maioria dos locais, para encarar essa realidade. Temos de entender que cuidar bem dos idosos hoje é cuidar de nós mesmos no futuro.

O que acha que está faltando para esse cuidado melhor? 

Falta uma valorização dos especialistas em geriatria e gerontologia, dos profissionais de saúde não médicos que se especializam para esse tipo de cuidado. Nós também não temos um sistema de aposentadoria adequado. A questão financeira é fundamental para um envelhecer saudável.

Nós não temos estruturas físicas, seja de meio de transporte, de atendimento nos serviços públicos e privados para encarar essa realidade.

Temos de entender que cada vez mais as gerações estão se aproximando. Apesar de elas estarem distanciadas pela idade, elas estão se aproximando em termos de conhecimento, de conectividade. Hoje em dia, um senhor de 60 anos e seu neto de 10 anos são muito mais próximos, do ponto de vista de entendimento, de conhecimento, de conversa, do que há 30 anos. Há 40 anos, o idoso de 60 anos era o que hoje é o idoso de 80.

Então, hoje em dia as gerações estão mais próximas e não tem porque haver essa “idosofobia”, “velhofobia”, que a gente descreve. É importante lembrar que essa violência contra o idoso não é só violência física, de maus-tratos, é também uma violência psicológica. O idoso sofre com esse preconceito, com essa violência também no mercado de trabalho, onde ele é trocado a todo momento, de forma muito simples e quase descartável por uma pessoa mais jovem.

É o contrário do que vemos nos países desenvolvidos e nos países que já passaram por esse processo de envelhecimento que o Brasil está passando agora. Nesses países existem programas para reinserir esse idoso ao mercado de trabalho. Ainda estamos caminhando de forma lenta para essa preparação.

Como o Brasil vê o idoso hoje? 

Acho que o Brasil ainda enxerga o idoso com muito preconceito. Nós somos um país de certa forma preconceituoso, nesse aspecto e em outros também. Mas o Brasil ainda enxerga o idoso como um fardo a ser carregado, seja fisicamente ou financeiramente.

Ainda não enxergamos o idoso de forma preventiva. As nossas políticas não se preparam para que esse envelhecer não seja com ganho de disfunção, com limitações. Acredito que esse é o ponto principal. É importante viver muito, mas viver melhor, bem. Não adianta chegar aos 70 anos em uma cadeira de rodas.

Outro ponto é que o País precisa se organizar em estrutura também. Estrutura financeira, um bom programa de previdência, estrutura física preparada e adaptada em locais de atendimento ao público, de transporte preparado para receber pessoas com limitações.

Como esse preconceito com o idoso atrapalha?

A gente esquece que vai chegar lá também. O preconceito já começa com a gente dizendo que não quer envelhecer. O problema é que a gente esquece que a outra saída é morrer jovem. Não é que as pessoas não querem envelhecer, elas não querem é ter limitações, querem envelhecer bem.

Não costumo estereotipar, dizendo que tem que deixar o cabelo ficar branco, que não pode tratar as rugas. Não! Acredito que cada um tem que viver o envelhecimento como quiser.

O que não pode acontecer é deixar que esse envelhecimento se torne um fardo. A pessoa tem que procurar ser saudável. Se quero esconder meu cabelo branco, se o outro quer ajustar a ruga, se quer melhorar um pouquinho de estética, não importa. Desde que dentro de limites e não coloque a saúde em risco por isso, acho superválido e estimulo isso sim. O que não pode é deixar de fazer e de buscar prevenções, cuidar da saúde, se preparar para ter um envelhecimento saudável.

Fonte: https://tribunaonline.com.br/cuidar-bem-dos-idosos-e-cuidar-de-nos-mesmos-diiz-medico